2. ENTREVISTA 16.10.13

GUY RYDER - "O BRASIL CONSEGUIU TRADUZIR O PROGRESSO ECONMICO EM JUSTIA SOCIAL"

Diretor-geral da OIT elogia distribuio de renda no Pas e critica falta de estmulos ao crescimento da economia mundial 
por Paulo Moreira Leite 

DESENVOLVIMENTO - Para o diretor-geral da OIT, Guy Ryder, apesar de muitos problemas subsistirem,  difcil negar o progresso do Brasil

Nascido na cidade operria de Liverpool, no interior da Inglaterra, Guy Ryder, aos 57 anos de idade,  um cidado com ttulos surpreendentes. Ativista sindical na juventude, ele tem um diploma de cincias polticas por Cambridge, uma das mais respeitadas universidades do mundo. Em outubro de 2012, aps uma carreira em organismos internacionais, Guy Ryder tornou-se o primeiro sindicalista a assumir a direo-geral da Organizao Internacional do Trabalho nos 94 anos da entidade, numa mobilizao que envolveu centrais de vrios pases, inclusive as brasileiras CUT, Fora Sindical e UGT. Formada por representantes de governos, empresas e sindicatos, na semana passada a OIT reuniu, em Braslia, 1.300 delegados de mais de 130 pases, em sua III Conferncia sobre Trabalho Infantil. Num dos intervalos do evento, Guy Ryder falou  ISTO.

"Os avanos no combate  pobreza foram enormes. Hoje, o  Bolsa Famlia  um programa conhecido no mundo inteiro

Franois Hollande teve um papel positivo. Convocou  centrais sindicais e patronais e acabou conseguindo um acordo que garante a proteo ao emprego"

Isto -  possvel esperar alguma melhora no desemprego e nos salrios nos prximos anos? 

Guy Ryder - A situao do mundo do trabalho no evolui desde 2008. Temos mais de 200 milhes de desempregados no mundo desde ento e no se v uma perspectiva de melhora importante. O preocupante  que agora at se fala numa recuperao econmica  em alguns pases, mas  uma recuperao sem emprego. O desemprego continua aumentando, ainda que se possa notar uma pequena evoluo. Pelo menos agora j se admite que o problema existe e se fala sobre ele. Na ltima reunio do G-20, o tema central foi emprego e crescimento. Falou-se de salrio mnimo, emprego e negociao coletiva. 

Isto - Neste ambiente, muitos analistas dizem que o Brasil  um caso  parte. O sr. concorda? 

Guy Ryder - O Brasil  um caso que se destaca. Nos ltimos anos, teve um crescimento slido, s vezes impressionante. Mesmo que esse crescimento tenha diminudo, ficaram frutos importantes. A partir de uma poltica deliberada por parte do governo, aproveitou-se o bom momento econmico para promover objetivos sociais. Para empregar a lgica da OIT, dizemos que o Brasil conseguiu traduzir o progresso econmico em justia social. Os avanos no combate  pobreza foram enormes. A grande desigualdade  um problema histrico, que todos conhecem no Brasil, e nesse terreno foram feitos avanos importantes. Hoje, o Bolsa Famlia  um programa conhecido no mundo inteiro. Claro que muitos problemas subsistem, mas seria difcil negar o progresso. 

Isto - Referindo-se  Europa, o sr. j disse, certa vez, que o desemprego alto poderia provocar revoltas semelhantes  Primavera rabe. 

Guy Ryder - Sempre que o desemprego aumenta e a desigualdade se acelera, surge essa questo: ser que a estabilidade social vai ficar ameaada? Na verdade, esta no  a pergunta correta. No  preciso esperar por uma ruptura para se tomar medidas necessrias a fim de que possa ser evitada.  melhor agir antes. Mas em alguns pases, ao menos no sul da Europa, existe um risco real de ruptura da ordem. O caso mais evidente  o da Grcia, onde uma crise social gravssima produziu at uma ascenso forte da extrema direita, inclusive com a formao de um partido nazista que acaba de ser colocado na ilegalidade. 

Isto - Se o sr. fosse um cidado grego, o que estaria fazendo em 2013? 

Guy Ryder - Talvez eu estivesse fazendo como muitos cidados gregos. Convencidos de que se encontram numa situao sem salvao, eles esto mudando de pas para tentar a sorte em vrios lugares, inclusive na Austrlia.  compreensvel, mas no  a melhor reao. A atitude adequada  ficar no pas, se associar a outros cidados e procurar uma sada conjunta.  difcil, mas no h outro caminho. Vivemos uma situa-o difcil em todo o mundo.

Isto - Mesmo no mundo desenvolvido? 

Guy Ryder - Nos Estados Unidos, os problemas sociais se tornaram to srios que ameaam a economia. As estatsticas  recentes mostram que, hoje,  a desigualdade entre os cidados chegou ao mesmo nvel de 1928. A questo, agora,  evitar o que aconteceu em 1929, porque ns sabemos o que aconteceu ento.

Isto - Na dcada de 1930, os Estados Unidos conseguiram vencer a depresso atravs da poltica do New Deal, de Franklin Roosevelt. O sr. acha que falta um lder como Roosevelt para dirigir a recuperao americana e mundial? 

Guy Ryder - Vivemos uma crise internacional e ela deve ser resolvida internacionalmente. Para isso o G-20 tem um papel muito importante. Entre 2008 e 2009, o G-20 tomou medidas necessrias. E  at curioso, porque naquele momento ns tnhamos George W. Bush na Presidncia dos Estados Unidos, e o (Nicolas) Sarkozy, na Frana. Eles definiram polticas que permitiram a recuperao do setor financeiro, algo que precisava ser feito naquele momento. O problema  que isso durou pouco. Quando se garantiu a salvao do setor financeiro, no se fez mais nada. 

Isto - O que deveria ser feito, agora? 

Guy Ryder - Como acontecia nos anos 1930, a economia tem hoje um problema de demanda. As pessoas no tm dinheiro para consumir. Sem consumo, no h produo e no se criam empregos. Seria preciso colocar recursos financeiros na economia real. Seria preciso provocar esse consumo.  complicado porque enfrentamos uma situao de demanda que  anterior  crise. Em 30 anos a produtividade do trabalho s aumentou, mas os salrios no acompanharam essa elevao. Esse  o grande desequilbrio. 

Isto - Como o sr. avalia a vitria de Angela Merkel nas eleies alems? 

Guy Ryder - Foi a crnica de uma vitria anunciada. O desemprego na Alemanha  muito baixo, em torno de 5%.  natural que os alemes considerem que ela maneja a economia muito bem, ao contrrio do que acontece com outros pases na Europa. Com desemprego alto, salrios em queda, vrios governos caram. Merkel foi uma exceo absolutamente lgica.  

Isto - Mas  uma situao diferente da da Frana, por exemplo. 

Guy Ryder - Considero que o primeiro ministro da Frana, Franois Hollande, teve um papel positivo. Tomou posse sob uma presso muito grande para mudar as regras do mercado de trabalho. Convocou centrais sindicais e patronais e acabou conseguindo um acordo que garante a proteo ao emprego.

Isto - Existe, no Brasil, uma discusso muito grande em torno da flexibilizao das leis trabalhistas. No Congresso brasileiro, debate-se um projeto de terceirizao de toda a mo de obra. Como o sr. v esta questo? 

Guy Ryder - Ns consideramos que na Amrica Latina e tambm no Brasil existe um problema anterior, que  a informalidade, condio de milhes de trabalhadores; quem sabe 48% de todos os assalariados do continente. Eles no tm direito algum. A informalidade, deste ponto de vista,  a flexibilizao em estado absoluto. O debate sobre a flexibilizao, que diz respeito  diminuio de direitos,  o verdadeiro debate dos ltimos 30 anos. Com a globalizao, os pases enfrentaram presses para serem mais competitivos, e a flexibilizao apareceu como a sada para todo mundo. Mas, depois da crise de 2008, todos perceberam que no era assim. Os estudiosos de esquerda, mas tambm de centro e de direita, perceberam que se avanou demais na flexibilizao. Acreditava-se que o emprego seria garantido para quem fizesse a flexibilizao, mas no foi isso o que aconteceu. 

Isto - No perodo de maior crescimento econmico, no Brasil, tivemos um aumento na formalizao e no da flexibilizao... 

Guy Ryder - Na minha opinio, o debate segue em aberto. No sou favorvel  manuteno de regras totalmente rgidas no mercado do trabalho. Elas tambm podem ser prejudiciais. Mas devemos evitar qualquer teoria simplista. O mundo real no funciona assim.  preciso encontrar equilbrios, que passam pelo dilogo social. Vivemos em sociedades que perderam essa capacidade de dilogo, em especial na Europa. E isso precisa ser retomado. O que todos queremos, de qualquer maneira, so empregos decentes, que permitam que todas as pessoas possam sobreviver de seu trabalho com dignidade. No queremos sociedades movidas pela especulao. Algum pode ser contra isso? 

Isto - Muitos estudiosos dizem que os sindicatos so entidades que pertencem a outra poca das sociedades humanas. O sr. concorda? 

Guy Ryder - Ns sabemos que a sociedade mudou. Somos mais individualistas. Isso tem a ver com muita coisa, at com a informtica. Os jovens se comunicam atravs de computadores e no comparecem a reunies. Essa  uma grande diferena. Essas mudanas afetam todas as organizaes coletivas, a comear pelos partidos polticos. Ento  claro que as pessoas frequentam menos sindicatos hoje do que ontem. Mas da a dizer que eles se tornaram rgos do passado no corresponde  realidade. Quando as pessoas enfrentam uma crise, se voltam para os sindicatos. Foi atravs deles que a populao europeia deu respostas contra as polticas de austeridade, cobrou mudanas, fez greves.  

Isto - O sr. atuava no movimento sindical quando Margaret Thatcher enfrentou uma greve dos mineiros, que teve consequncias histricas.  

Guy Ryder - Foi um momento durssimo do sindicato e da histria da sociedade britnica. Margaret Thatcher modificou as regras de negociaes coletivas, o direito de greve, sequestrou os fundos de determinados sindicatos. Foi um momento muito complicado e difcil. Pode ser incmodo dizer isso, mas  preciso reconhecer. Em 1979, quando a Thatcher venceu as eleies pela primeira vez, ela teve mais apoio entre os sindicatos do que entre os polticos trabalhistas.

Isto - Por qu? 

Guy Ryder - Ns tivemos crises muito graves no Reino Unido nos anos anteriores  vitria de Thatcher. Eram conflitos permanentes. Creio que as pessoas comearam a acreditar que esta situao estava prejudicando a sociedade britnica e que era um momento de mudana. A senhora Thatcher, que pode agradar ou desagradar a cada um, mas jamais poderia ser definida como uma poltica pouco inteligente, soube aproveitar aquela oportunidade.

